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À Procura da Paz

19/09/2017 - 09:20 | atualizado em 30/06/2020 - 14:26

Benedito Said

Em três mil anos de guerras, os relatos de carnificinas, massacres, infortúnios e dilacerações sobrepõem-se como história ou apenas como números. Tanto assim, que a imprensa (e a polícia) aborda mortes ou sinistros dos mais diversos através de estatísticas. Morreram tantos e o morto de ontem vai para a prancheta, perdendo nome e identidade.

Livros como a História da Escravidão, de Milton Meltzer; O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, ou Cinquenta Dias a Bordo de um Navio Negreiro, de Pascoe Grenfell Hill, mais ainda milhares de artefatos monumentais da literatura ficcional fundamentada na realidade bélica através dos tempos, mostram a insensatez que acompanha o humano quando está diante do outro a ser dominado ou com potencial de ser o dominante. Não há culpa e desculpa. Justificam essa justiça conforme a lei que lhe garante dormir em paz como nada ocorrera ao seu redor.

Em 1892, os alemães estabeleceram colônia na África do Sudoeste, onde hoje é a Naníbia. Os povos locais foram dominados à força, ferro e fogo. Os hereros, etnia importante daquela região, incomodavam os europeus invasores e foram retirados de lá para que os 4.500 colonos alemães ocupassem a terra para criação de gado. Em janeiro de 1904, os hereros se rebelaram. Inútil reação. Os colonizadores, detalham os relatos da época, instituíram uma marcha da morte ao levá-los ao Deserto do Kalahari, onde, conforme previsto, muitos pereceram. Para completar, contaminaram sua água, espancaram e atiraram nas pessoas. Depois, foi uma tragédia.

O general Lothar von Trotha, governador da colônia, apertou o cerco aos hereros e determinou que “dentro das fronteiras alemãs, cada herero, não importa se estiver armado ou não, com ou sem gado, será alvejado. Não aceitarei mais mulheres nem crianças”. Os nativos tinham que ficar confinados no local a eles reservados. Os relatos da carnificina até “não haver mais um herero para matar” são dramáticos. Um missionário explicou que “o alemão médio via os nativos no mesmo nível de primatas sofisticados (babuíno era o termo preferido) e os tratava como animais, com menor valor do que cavalos e gado”. A história de um bebê de nove meses que foi achado numa moita, chorando de fome e medo, é terrível. O recém-nascido foi jogado como bola de mão em mão pelos soldados e colonizadores alemães. Quando eles se cansaram, “um soldado acoplou a baioneta na ponta do rifle e disse que pegaria a criança. Ela foi jogada ao ar e o soldado a transfixou, o que foi celebrado em gargalhadas, como se fosse uma piada”.

Em A Hora e Vez de Augusto Matraca, de Guimarães Rosa, o encontro entre Nhô Augusto e o padre é monumental. Recuperando-se de feridas, Nhô Augusto deseja remissão: “se eu pudesse ao menos ter absolvição dos meus pecados”. Pergunta ao padre “se Deus vai ter pena de mim, com tanta ruindade que fiz, e tendo tanto pecado mortal?”. O padre responde que Deus terá pena sim, pois “Deus mede a espora pela rédea, e não tira o estribo do pé de arrependido nenhum...”. Em certo trecho, o padre diz que “sua vida foi entortada no verde, mas não fique triste, de modo nenhum, porque a tristeza é aboio de chamar o demônio, e o Reino do Céu, que é que vale, ninguém tira de sua algibeira, desde que você esteja na graça de Deus, que ele não regateia a nenhum coração contrito”.

Hoje, pelo mundo afora, as guerras continuam, algumas tragédias coletivas; outras, individualizadas como confronto dolorido de vidas que se esvaem em drogas, corrupção, insignificâncias, materialidades, em alguns casos disputas de mercado, inclusive entre comercializadores da fé ou ignorância, egoísmos que vão para o caixão tão logo protagonistas ou antagonistas deixam de respirar. O texto bíblico fala em vaidade, apenas vaidade, esse sentimento desencarnado do que é eterno. E as pessoas vão se uniformizando-se conforme ideologias grupais, isolacionistas, discricionárias, mas formatadas conforme a amálgama comercial, material, nada imaterial por ser desprovida do Sopro do Espírito Santo.

A violência não escolhe palco. Olhem bem para dentro do que ocorre nas escolas. Mas há sinais de fogo e as próprias chamas para todos os lados sem qualquer escolha, primarismo do mal que desabrocha em flores radioativas de corações dilacerados, empedernidos no nada para o amanhã.

Vê-se muita tecnologia, normalmente através de celulares cada vez mais interativos, mas nada de alma. Alma tem origem latina. A palavra original anima remetia à “essência imaterial do ser humano, espírito”. Do vocábulo surgiram vários outros, como almejar (séc. XVII), quando se quer alcançar objetivos nobres, normalmente em ascensão. Mas hierarquia está no cerne de todo complexo social, inclusive aqueles à margem da lei. Mas nesse caso, com certeza, prevalece outra palavra saída da costela da primeira, que é desalmado (séc. XVI), característica de quem agride, destrói, não aprendeu o ato sagrado do diálogo, esgrimir as palavras para construção de sociedade de dignidades. Eis outro cenário em que a Educação está inserida para ser transformadora. 

Benedito Said é o atual Secretário de Educação do Município de Montes Claros

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