Benedito Said
São Jerônimo é unanimidade entre cristãos e não cristãos. É citado por católicos e não católicos de igual modo. A Bíblia de são Jerônimo em latim vulgar foi a primeira a conter o Antigo e o Novo Testamento. Viveu entre 347 a 420, sendo prolífico escritor e defensor da igreja. O que não quer dizer que não chegou a ser um questionador. No ano de 374, há registro de carta desaforada que escreveu ao Papa Damásio: “Ainda embora sua grandeza me terrifique, sua bondade me atrai. (...) Mas desde que, por causa de meu pecados, me recolhi a este deserto que jaz entre Síria e a incivilizada desolação, não passo, devido à grande distância entre nós, sempre a pedir à sua santidade a coisa santa de Deus”. E conclui: “Quem não ajunta convosco espalha; aquele que não é de Cristo é do Anticristo”.
Jerônimo nasceu na Dalmácia, onde hoje está a Croácia, Mar Adriático, nos meados do século IV. Nasceu para ser um caminhante não-errante. E assim viveu durante 73 anos, começando a vida ainda jovem quando foi para Roma, às margens do rio Tibre, quando aderiu ao cristianismo. Foi à Gália e Aquileia, seguindo para viver como eremita por um período no Deserto de Cálcida, na Síria. Viveu também por alguns anos em Constantinopla (Istambul), entre o Mediterrâneo e o Mar Negro, até se mudar para Belém, na Judeia, e próxima de Jerusalém, onde morreu em 420.
Era tempo bem diferente dos dias relativos de hoje, em que imperam tecnologia, abstração, materialismo, consumismo volátil como o próprio viver é superficial. Como, então, sem transporte ou comunicação, sem infraestruturas das mais diversas, alguém pode se tornar afamado por ter traduzido com extremo cuidado a Bíblia cristã para o latim? E olhe que ele se sustentou para essa tradução em texto hebraicos, consultando versões grego-judaicas e daí saiu a sua famosa Vulgata (edição divulgada) que até hoje é usada. Mas São Jerônimo viajou, experimentou, aprendeu, ensinou, respeitou, meditou, leu muito.
Ao escrever para o Papa Damásio, para quem advertiu que “quem não ajunta convosco espalha; aquele que não é de Cristo é do Anticristo”, afirma por tabela a necessidade de preservação de valores de dignidade, de altruísmo, fraternidade, educação, na família e na escola, que enobrece, inclui para (re)-conhecer. Quando o território não tem valores, os líderes sabem espalhar, principalmente em favor do Anticristo. Claro que não há necessidade de se apoiar em teorias medievais, pois os tempos modernos atuais exigem visão cosmopolita, mas vale a metáfora sobre as perdas de vidas em cronologia, diacronia ou sincronia, cujos talentos são sepultados de maneira epitelial.
Mesmo diante de problemas de infraestrutura, não tão penosos quanto aqueles que São Jerônimo superou para ser lembrado até os nossos tempos, temos nossos enfrentamentos, como também temos nossas realizações como sistema educacional num município complexo em questões sociais, econômicas, mas repleto de talento e oportunidades. Talvez o mais complexo artefato contrário para se alcançar as metas propostas esteja no despertar dos talentos para quem devem ser apresentadas as oportunidades, sem que necessariamente sejamos eremitas ou vivamos enclausurados no deserto árido comum aos que não têm objetivos, compromisso, desejo.
Novo semestre. Que nossas batalhas sejam menos conflituosas ou belicosas, porque assim já estamos fazendo, prevalecendo-se o diálogo para a formação e vitória coletiva. É melhor ajuntar do que espalhar.
Benedito Said é Secretário Municipal de Educação de Montes Claros
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