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27/11/2017 - 13:34 | atualizado em 30/06/2020 - 14:26

Benedito Said

Houve uma época, talvez até há quarenta, cinquenta anos isso ainda era muito comum, em que a fome era parceira inseparável de milhares e milhares de pessoas. Os mais velhos sabem disso. Na escola, a discussão não tinha viés sociológico naqueles tempos. Distantes também eram as motivações de tanta miserabilidade, até por faltar discussão. Sofrer, aos olhos medievos, inclusive quando se padecia no paraíso, acabava como fato normal, uma piedade expiando pecados para se purificar.

Como se fosse amiga cotidiana, a fome era estudada como “grande apetite de comer”, como se apenas ali estivesse um vocábulo. Suas causas eram mais atemporais e mereceriam a esmola do servo de Deus contrito em oração. Esfaimado (sec. XVII) também vinha do latim (famês) e deu origem a “famulento”, registrado pela primeira vez em 1572 em português, mas como cruzamento de “fame” e “fãmulo”, indicativo de servo.

Está aí a questão. “Fâmulo” é designativo de servo. Evidente que as palavras têm vida e ganham transformações ao longo dessa vida. Servo está ao mesmo tempo vinculado ao servilismo, à escravidão, ao sem direito; mas também sobrevive como indicativo daquele que serve, tem serventia, é parceiro, é o que doa de si. E quem serve é porque tem aptidão para isso. Está preparado e capacitado para esse fim, mormente de muita nobreza. Tanto assim que até em passado nem tão distante, dizia-se que aquele não que não serve é inútil. Na história, há sem-número que acabaram mesmo inutilizados, no limbo, sem valorização, o que é triste para qualquer ser vivo, seja ele pensante ou não. E para desastre humano havia disseminada a escravidão.

O reverso disso é carta de alforria conseguida através do conhecimento, domínio de saberes, domínio proficiente para servir em liberdade. Não à toa, fomentar também tem origem no substantivo feminino fome, mas designa “promover o desenvolvimento de”. Do latim, fomentar é dar calor, aquecer. Dar vida a si e aos outros.

Está aí o que vocês fazem por vocês e para o mundo em que ocupam valiosos espaços. Construíram a alforria através da educação, da formação, aquecendo dentro de suas almas e todas as outras ao derredor, as condições de liberdade para um mundo melhor. Sem a fome ou outro tipo qualquer de escravidão, com clarividência para expurgar opressão, ampliar linguagem convergente à libertação, à valorização da vida.  Parabéns aos livres desta terra que precisa de paz, harmonia para que menos sofram na escravidão, saibam, principalmente, escolheram servir com a competência libertadora adquirida.

Benedito Said é o atual Secretário de Educação do Município de Montes Claros

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